CRÔNICA: Zico e a Tuba
Um momento de literatura dedicado a todos os nossos seguidores
Por: Marcos Ivan de Carvalho
Havia, na fazenda, uma figura impossível de ignorar: Zico da Tuba. Não apenas pelo volume do instrumento que carregava, mas pela própria presença — larga, sonora, quase tão imponente quanto o metal que abraçava contra o peito.
Zico não tocava a tuba; ele a habitava.
Passava horas inteiras a soprar notas que pareciam brotar não apenas do fôlego, mas de algum lugar mais fundo, como se a música lhe nascesse da própria alma. Preparava-se, com devoção quase religiosa, para os ensaios da pequena banda da igreja de São Benedito — onde cada dobrado ganhava, graças a ele, peso e coração.
Morava no alto, além do mangueirão, e sua descida diária era um espetáculo aguardado. A trilha estreita que cortava o capinzal mal comportava o corpo e o instrumento — quanto mais os dois juntos. Ainda assim, lá vinha ele, equilibrando-se entre a gravidade e o improviso.
Quando resolvia descer montado em sua bicicleta amarela, então, a cena ganhava contornos de fábula. A pobre magrela, rangendo sob o peso combinado de homem e tuba, parecia protestar em silêncio. E a molecada, espalhada pelo caminho, explodia em riso — não de deboche, mas daquele riso puro que só nasce diante do extraordinário.
O mais bonito, no entanto, era que Zico ria junto.
Fazia graça, inventava manobras improváveis, transformava o percurso em espetáculo. Havia nele uma leveza que desmentia o corpo pesado — como se a alegria lhe fosse mais natural do que qualquer esforço.
Certo dia, perdeu o ônibus que passava pela porteira da fazenda. A aflição foi tamanha que o suor lhe brotava em abundância, escapando pelas frestas do terno marrom — o uniforme solene da banda do maestro Policarpo. Não era um simples atraso: sem Zico, faltava à banda o chão, o compasso, a pulsação dos dobrados.
Porque, sem a tuba, tudo ficava mais leve — e não no bom sentido.
O patrão, homem prático, mas não insensível, resolveu intervir. Levou Zico e sua inseparável companheira até a cidade. E voltou rindo.
Rindo muito.
Entre uma gargalhada e outra, contou o motivo: na pressa de descer da perua, Zico enroscara a tuba no cinto de segurança. Esquecera-se de soltá-lo e, ao tentar sair, quase protagonizara um desastre digno de plateia. Nada grave — apenas um susto e uma boa história.
A tuba, intacta.
O orgulho de dona Castorina, preservado.
Ao entardecer, de volta à fazenda, Zico retomava seu ritual. Mal fechava a porteira e já levava o bocal aos lábios:
TU. TU. TU.
Era o chamado.
Como se obedecessem a uma convocação invisível, as crianças surgiam de todos os cantos. Improvisavam instrumentos com o que havia à mão: bambus viravam sopros, latões tornavam-se tambores, tampas de panela cintilavam como pratos. O pequeno Ziquinho, com sua engenhosa “tubinha”, marchava orgulhoso atrás do pai.
E assim se formava a mais improvável das bandas.
Havia ali algo de profundamente verdadeiro — uma música feita menos de técnica e mais de pertencimento.
Quando a noite começava a cair, Zico repousava a tuba sobre o banco de madeira, como quem deita uma velha companheira. Conversava com as crianças, distribuía balas, contava histórias de Pedro Malasartes. Sua voz, então, substituía o instrumento — e continuava a encantar.
Depois, vinha a subida.
A bicicleta amarela, agora empurrada com esforço, rangia outra vez no silêncio crescente. Difícil dizer se era a tuba que pesava mais ou o próprio Zico. Talvez nenhum dos dois. Talvez fosse apenas o cansaço de um dia bem vivido.
Ou, quem sabe, o peso invisível das coisas que a gente ama.
Dona Castorina seguia ao lado, em passo tranquilo, guardando no olhar uma felicidade simples — dessas que não fazem barulho, mas sustentam o mundo.
E assim, entre o riso das crianças, o sopro dos metais e a poeira do caminho, Zico seguia sua vida.
Pesado, sim.
Mas, de algum modo, leve.
(Texto autoral de Marcos Ivan de Carvalho, integrante do Compêndio das Lendas e Contos (em fase de produção), direitos autorais reservados (CBL/2025).
Ilustração: IA-ChatGPT
