EDITORIAL: Autenticidade, método e responsabilidade - o que está em jogo no novo ranqueamento do turismo paulista
Enfeitar o buquê da noiva não garante a qualidade da cerimônia.
TEXTO: Marcos Ivan
ILUSTRAÇÃO: IA_Chat Gpt
Durante evento técnico realizado na Estância Turística de Guaratinguetá, com a participação de Vanilson Fickert, assessor técnico da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, foram apresentados esclarecimentos relevantes e alertas objetivos sobre o próximo ciclo de ranqueamento dos municípios turísticos paulistas.
Previsto para 2027, o processo já se encontra em curso, com adoção de ferramentas de análise mais rigorosas e diretamente vinculadas à consistência técnica e à qualidade da redação dos Planos Diretores de Turismo municipais.
O novo modelo reforça um princípio fundamental: não há espaço para improviso, replicação de modelos ou soluções genéricas.
O novo cenário: mais exigência, menos tolerância a inconsistências
A análise técnica estabelecerá, inicialmente, a classificação atual das 78 Estâncias Turísticas, em ordem decrescente de pontuação. Na sequência, serão avaliados os 136 Municípios de Interesse Turístico.
Esses 214 municípios, atualmente habilitados a pleitear recursos do DADETUR, dependem diretamente da validação técnica de seus dados e da qualidade estrutural de seus planos para manutenção ou evolução de status.
O novo enquadramento projetado — 80 Estâncias e 165 MITs — introduz um elemento crítico: mobilidade real entre categorias, inclusive com risco de rebaixamento fora do próprio sistema de municípios contemplados.
Não se trata apenas de subir ou descer de categoria. Trata-se, em casos extremos, de perder posição estratégica no mapa do turismo estadual.
O Plano Diretor de Turismo como ativo estratégico (e não peça formal)
O Plano Diretor de Turismo deixa de ser um instrumento protocolar para assumir papel central na avaliação.
Serão determinantes:
Consistência técnica
Coerência interna
Objetivo
Aderência à realidade local
Capacidade de demonstrar identidade territorial
Nesse contexto, uma simples reprodução de modelos utilizados por outros municípios — ainda que bem sucedidos em sua origem — tende a ser interpretada como fragilidade estrutural.
Planos genéricos não apenas permitem de pontuar: eles comprometem a alteração do
O papel do COMTUR: governança real, não formalidade
Os Conselhos Municipais de Turismo (COMTUR) assumem protagonismo inequívoco neste novo ciclo.
De instâncias frequentemente subutilizadas, passam a ser:
Corresponsáveis pela construção do Plano
Instâncias de validação técnica e institucional
Espaços de articulação entre poder público e iniciativa privada
A omissão, fragilidade ou atuação meramente protocolar do COMTUR poderá impactar diretamente o desempenho do município.
Governança ativa deixa de ser diferencial e passa a ser requisito.
Dados e evidências: fim dos “achismos”
Outro ponto relevante diz respeito à qualidade das informações apresentadas.
Modelos tradicionais, como pesquisas de fluxo turístico baseadas em estimativas frágeis, tendem a perder relevância. Há estudos em andamento para incorporação de novas tecnologias, como dados de telefonia móvel, ainda em fase de consolidação.
O recado é claro: os dados precisam ser verificáveis, consistentes e defensáveis técnicos.
Risco real: perda de recursos, visibilidade e protagonismo
A inadequação do Plano Diretor de Turismo não gera apenas impacto técnico. Seus efeitos são diretos:
Redução ou perda de acesso a recursos públicos
Diminuição da competitividade regional
Fragilização da imagem institucional do município
Perda de protagonismo no cenário turístico estadual
A decisão, portanto, não é estética nem burocrática. É estratégico.
Diretriz central: danos com método
Construir um Plano Diretor de Turismo exige mais que cumpra os critérios formais.
Exílio:
Leitura perdida do território
Participação efetiva dos atores locais
Clareza de vocação turística
Compromisso com execução e resultados
A lógica do “copiar e colar” — ainda recorrente em alguns contextos — torna-se incompatível com o nível de exigência prevista.
O planejamento turístico eficaz não é terceirizado integralmente, nem é reproduzido mecanicamente.
Conclusão: o momento de agir é agora
O ciclo já começou. Os critérios são mais rigorosos. A margem de tolerância temporária.
Os municípios que compreenderem o Plano Diretor de Turismo como instrumento estratégico estarão mais preparados para avançar.
Aqueles que o tratam como peça formal correm riscos concretos de retrocesso.
A escolha é institucional, técnica e política.
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Penso assim e assino.
Marcos Ivan de Carvalho
Jornalista especializado em turismo, MTE91.207/SP
Gestor de Turismo pelo IFRJ
Membro do Conselho Deliberativo da AMITur.


