EDITORIAL: Está próximo o Leilão de Concessão da EFCJ
O que os pindamonhangabenses, natos ou de coração, podem fazer pela Estradinha?
TEXTO: Marcos Ivan de Carvalho
CAPA: Geração IA CHATGPT
(Nota da redação: Editorial repostado, devido a incorreções criadas pela quebra de um plug in em nossa ferramenta de edição)
ATUALIZAÇÃO EM 01/04/2026 (data do leilão)
Pensei em levar este texto à Tribuna Livre da Câmara de Vereadores de Pindamonhangaba.
Depois, compreendi que o tempo seria curto — e a atenção, possivelmente, ainda mais.
Entre celulares e tablets, dificilmente haveria espaço para reflexão.
E leitura, sabemos, acontece antes da sessão.
Por isso, escolho escrever.
Para alcançar mais pessoas — e, com sorte, alguns vereadores.
Vamos lá.
(Ou, como dizia meu saudoso pai: vamos, venhamos e convenhamos.)
1. A REALIDADE PRECISA SER DITA
É fundamental sermos francos com a população.
O projeto de concessão da ferrovia encontra-se em uma esfera que, neste momento, não permite interferência prática imediata por parte do município.
Foram realizadas duas audiências públicas, amplamente divulgadas — inclusive com publicação no Diário Oficial do Estado.
Em nenhuma delas houve participação formal de representantes da Prefeitura ou da Câmara de Vereadores.
Na audiência virtual, houve apenas uma manifestação no chat do YouTube, sem inscrição prévia, por parte da titular da pasta de Cultura e Turismo — o que a tornou, infelizmente, inválida. Por ser uma secretária municipal, obrigatoriamente deveria ter tomado ciência plena dessas audiências, por meio do Jurídico Municipal ou do próprio Gabinete do gestor.
As audiências cumpriram seu papel: ouvir dúvidas e anseios da sociedade civil — especialmente de representantes de Campos do Jordão e Santo Antônio do Pinhal, estâncias turísticas com forte atuação no Alto da Mantiqueira Paulista.
Reforçando: nenhuma autoridade de Pindamonhangaba se fez presente.
Posteriormente, realizou-se uma terceira reunião, denominada “audiência pública”, presidida pela vereadora em exercício de mandato, com a presença de um representante da Secretaria Estadual de Turismo e Viagens. No entanto, não há registro de pleitos formalmente apresentados e acatados pela Secretaria de Parcerias e Investimentos, responsável pela condução do processo de concessão da Estrada de Ferro Campos do Jordão.
O leilão ocorrerá em 12 de junho de 2026, devido à reprogramação no calendário das ações pela concessão. Anteriormente estava previsto para 29 de abril deste ano.
A empresa vencedora — que deverá superar a oferta mínima de R$ 1,5 milhão — terá um desafio significativo pela frente.
E é importante compreender:
Não haverá, neste primeiro momento, o tradicional “trenzinho da Estradinha” saindo de Pindamonhangaba até Campos do Jordão.
Os investimentos iniciais estarão concentrados em Campos do Jordão e teoricamente em Santo Antônio do Pinhal, mas oficialmente em Pindamonhangaba, pois aquele cantinho onde se localiza a Estação de Eugênio Lefèvre pertence ao território nosso.
Pela minuta do "Contrato de Concessão de Obra no Complexo Turístico Ferroviário da Estrada de Ferro Campos do Jordão - EFCJ", fica clara a inserção de nossa cidade desde o início das ações pela revitalização. Vejam esse item: "4.2.1. Prestação dos SERVIÇOS DE PASSEIO TURÍSTICO no trecho da FERROVIA localizado entre a estação Emílio Ribas Turística, no MUNICÍPIO de Campos do Jordão, até a estação Eugênio Lefèvre, localizada no MUNICÍPIO de Pindamonhangaba".
Para Pindamonhangaba, mais consistentemente, está prevista a restauração do Parque Reino das Águas Claras, com foco em turismo de contemplação, lazer e aventura — e acesso gratuito. Não será, inicialmente, um balneário. A longo prazo, a revitalização e manuenção da via férrea, podendo haver a terceirização da concessão para o caso de algum interessado desejar investir seus recursos (muitos) para vir a explorar o trecho ferroviário até Eugênio Lefèvre, no alto da Serra da Mantiqueira, vizinhanças de Santo Antônio do Pinhal.
Quanto às oficinas da EFCJ, há críticas sobre sua transformação em área gourmet.
Mas é preciso dizer: muitas dessas críticas nascem da falta de leitura integral do projeto.
A concessão exigirá modernização, inclusive com adoção de novas tecnologias — algo indispensável em um modal ferroviário turístico.
O patrimônio será respeitado, mas precisa atender às normas atuais de segurança.
Não haverá abandono.
Diante disso, o que podemos fazer?
Dialogar.
Reivindicar.
Manifestar intenções.
Mas não podemos criar a ilusão de que decisões estruturais serão alteradas fora do que está previsto contratualmente.
Expectativa política não altera modelagem contratual.
Ignorar isso é alimentar frustração coletiva.
2. O TREM TURÍSTICO E O TRANSPORTE COLETIVO
É legítima a defesa do trem turístico e da utilização da ferrovia como transporte coletivo.
É um desejo justo.
Mas precisamos perguntar com responsabilidade:
Isso está previsto no plano de concessão?
Até o momento, não há consolidação pública dessa funcionalidade como obrigação contratual.
Desejo político não substitui cláusula contratual.
Além disso, transporte coletivo e operação turística seguem lógicas econômicas distintas.
Misturá-las, sem base técnica, pode comprometer ambas.
3. O QUE ESTÁ SOB NOSSO CONTROLE?
Se há limites claros no curto prazo, há também responsabilidades imediatas.
A ferrovia, por si só, não cria um destino turístico.
Ela pode trazer visitantes.
Mas é a cidade que decide se eles ficam.
Se Pindamonhangaba não estiver preparada para receber, encantar e reter, o trem servirá apenas para que turistas passem — sem permanecer.
4. A RESPONSABILIDADE DA INICIATIVA PRIVADA
É urgente fortalecer o entendimento entre os atores da iniciativa privada.
Precisamos consolidar:
* Estrutura qualificada de alimentação e bebidas
* Rede de hospedagem competitiva
* Atrativos naturais organizados, sinalizados e seguros
* Profissionais do turismo capacitados (guias e agências) atuando no receptivo local
* Um posto de informações turísticas funcional e visível
* Um Conselho Municipal de Turismo ativo e comprometido, exercendo seu papel de consultivo, deliberativo e fiscalizador. Será, sempre, corresponsável pelo sucesso dos projetos turísticos
* Experiências turísticas estruturadas, capazes de aumentar o tempo de permanência dos turistas e, consequentemente, o tíquete médio
Hoje, muitos profissionais organizam viagens para outras cidades.
Precisamos inverter essa lógica.
Turismo não é espontâneo.
Turismo é planejamento e precisa ser, realmente, o melhor negócio de cada empreendedor.
5. OS EXEMPLOS REGIONAIS
Campos do Jordão e Santo Antônio do Pinhal não esperaram o trem.
Mesmo com períodos de inatividade ferroviária, fortaleceram sua identidade, estruturaram eventos e organizaram o setor privado.
Agiram.
E, por isso, o turista permanece por lá — com ou sem trem.
6. CONCLUSÃO
Não trago oposição.
Não trago entusiasmo ingênuo.
Trago realismo estratégico.
Se o trem operar como desejamos, estaremos prontos?
Se operar de outra forma, estaremos preparados?
Se houver atraso, teremos estrutura consolidada?
A cidade comporta, hoje, o fluxo turístico que deseja atrair?
Temos condições de receber grandes ônibus, oferecer conforto aos motoristas e qualidade aos visitantes?
Mais importante do que discutir como o trem virá é decidir como estaremos quando ele chegar.
Simples assim.
Assino:
Marcos Ivan de Carvalho
Jornalista especializado em turismo
Gestor de Turismo pelo IFRJ
Publicitário
Membro do Conselho Deliberativo da AMITur


