SELEÇÃO: Roubaram meu Garrincha.
A era romântica dos álbuns de figurinhas e a expectativa de agora
(Extraído do livro "Papo de Jacaré", em preparação, do autor Marcos Ivan de Carvalho)
No canto do olho direito da saudade revi aquela manhã de domingo, no campo da Ferroviária, quando consegui vender um tabuleiro e meio de curau de milho e creme de groselha. Voltei feliz da vida para casa, acertei as contas com dona Edwiges, fabricante dos doces. Ela contratava os moleques do bairro para serem os vendedores.
Num domingo cismei de ir vender os cremes de groselha lá no campo do Estrela, no bairro Crispim. Era um dia de muito calor, os doces azedaram. Voltei para casa muito chateado.
Não gostava muito de vender pirulitos de açúcar queimado, enrolados em papel impermeável vermelho, com palitinho feito com lascas de bambu e muito mais grudentos do que a goma arábica usada por nós para colar as figurinhas de futebol no álbum, com a ilusão de ganharmos uma bicicleta ou um “radinho de pilhas”. Não ganhei nada, nem mesmo a garrafa térmica para presentear mamãe.
Eu queria ganhar uma bicicleta, apesar de ainda não saber como andar numa. Era para papai ou o mano Telmo usarem.
Só aprendi a andar de bicicleta com quase oito anos de idade, já com o direito de atropelar um vigia noturno, numa madrugada chuvosa, durante o serviço de entregar pães, ajudando papai no emprego dele na padaria da família Sauro.
Nós dois, guarda e eu, caímos de peito no barro da ainda não asfaltada Rua Frederico Machado. Perdi alguns pães da entrega, mas não me machuquei.
Meu álbum de figurinhas!
A goma arábica era nova e eu gritava aos quatro cantos, chamando todo mundo de “ladrão”. Meu Garrincha carimbado havia sumido da página da Seleção Brasileira de 1958. Custara-me dois Didis, um Bellini e um Mauro.
Garrincha havia desaparecido, antes de ser pregado no espaço especialmente só dele.
Até hoje não sei que descolou essa figurinha carimbada e, por isso, não consegui completar a página para ganhar uma bicicleta. Ficou faltando o danado do Garrincha.
Hoje em dia os álbuns de figurinhas não têm a mesma magia, o mesmo romantismo e o desafio de conquistar a atenção das crianças de qualquer idade.
Meus olhos ficaram embaçados quando me lembrei dessa página colecionada nesse espaço de não sofrer com a saudade, apenas de contar saudade.
Um dos mais fanáticos colecionadores de figurinhas, em nossa adolescência/juventude, era um senhor conhecido por todos pela alcunha de Midões.
Midões trajava, quase sempre, roupas simples, confeccionadas em brim cáqui. Usava uma boina preta e óculos ray-ban. Trocava, vendia, comprava figurinhas difíceis em seu “ponto de atendimento”, à porta da padaria do Agostinho San Martin, bem ao lado do Bar do Arthur, ali na rua dos Andradas.
Hoje, além da Seleção, os álbuns perderam o encanto para meros interesses comerciais.
Vai lá, Brasil, eu ainda acredito!
(Ou vai ser apenas mais um tempo de "boné véio"?
